IN MEMORIAM
Frei Sofonias, ou como o povo costumava chamá-lo, frei Sanfonias ou frei Sinfonias, nasceu em Bachterwaarde, no ano de 1898, e fez os seus estudos em Megen, para depois dos votos simples e solenes em Wichen e Bleierheide respectivamente, receber a ordenação sacerdotal em Weert.
Diante da necessidade de ampliar mais o reino de Deus nos países longínquos, abandonou a sua pequena e acanhada Holanda, para atravessar os mares e trabalhar no Brasil, chegando dia 08-03-1926 no Rio de Janeiro. Foi vigário durante muitos anos no Rio Grande do Sul, onde desbravou como pioneiro franciscano os pampas em suas viagens apostólicas, fixando a sua residência em Cangussu.
Transferiu-se depois para Minas, e foi em Cordisburgo, que ele, sedens super sedem sanctam suam, quase como um ditador, distribuía ordens aos grandes e aos pequenos, aos poderosos e aos humildes da sua freguesia. Durante 15 anos, manteve o cetro intato, e tal era a sua influência na paróquia que, quando se falava em Cordisburgo, forçosamente devia falar-se também em frei Sofonias.
Era o dono de Cordisburgo, pois quase a metade da cidade pertencia ao patrimônio da igreja matriz, onde ele mandava e desmandava, e muito dono de circo ou de parque de diversão, não podia deixar de esbugalhar os olhos, quando na prefeitura lhe diziam, que a licença para montar o circo, quem a podia dar, era somente o vigário da paróquia.
A paróquia de Cordisburgo tem uma particularidade muito interessante. Grande demais para um padre, e pequena demais para dois. Até o dia de hoje, as hostes inimigas não conseguiram fincar pé nesta pequena cidade, em que todos, sem exceção, professam a religião Católica. Mas também, bastava surgir qualquer pequena irregularidade, para frei Sofonias ligar imediatamente os alto falantes da torre, e fazer ouvir em toda a redondeza, a sua, a voz do Santuário.
Mais de uma vez ouvi a voz do Santuário, e tamanho era o respeito do povo per esta voz, que, ao ouvi-la, os homens se descobriam reverentemente, e as senhoras, se persignavam como se estivessem rezando.
Num ambiente assim, quem não tomaria aos poucos os ares de ditador? Imaginem somente a reação do povo da roça e de muitos da cidade. Para certidão a gente precisava do vigário. Para casar? O vigário. Para enterro? O vigário. Para Missa? O vigário. Para comprar um lote afim de construir um barracão? Outra vez o vigário. E até para montar um circo, somente com licença do vigário. Centenas de habitantes de Cordisburgo construíram no terreno do vigário, e mesmo que pagassem os lotes em prestações de vinte ou cinqüenta cruzeiros mensais, sempre os donos compreendiam, que graças ao vigário foi-lhes possível ter uma casa própria.
Daí a atitude ditatorial e o "quem manda aqui sou eu", de frei Sofonias. Costumava ele dizer, nunca ter sido feliz com seus coadjutores. Mas também, numa paróquia como Cordisburgo, onde um era pouco e dois eram demais, difícil seria um bom entendimento entre vigário e coadjutores, pois durante a semana, nenhum ou pouco serviço havia, para ambos, e nos domingos, os coadjutores, em suas capelas, desfraldavam a bandeira da liberdade de agir conquistando assim a simpatia do povo.
Com pequenas excessões de alguns obstinados, frei Sofonias, soube conservar o seu rebanho contra as heresias e como um grande pastor perambulava as ruas da cidade, conversando com grandes e pequenos, para depois dar as suas impressões através dos alto-falantes do Santuário.
Transferido depois para Várzea da Palma, frei Sofonias, conseguiu, conquistar o povo da Belgo-Mineira, com o qual sempre mantinha grande amizade. Visitava os empregados em seus acampamentos no mato, onde celebrava a santa Missa, dando catecismo às crianças, como ele sempre e fielmente fazia em Cordisburgo no grupo escolar Mestre Candinho.
Morreu inesperadamente, mas não desprevenido.
Silenciou a sua voz em Cordisburgo e Várzea da Palma.
Junto ao trono de Deus, está sua boníssima alma, rezando e glorificando.
Rezando por nós. E glorificando a Deus.
Frei Sofonias Balvert faleceu em Várzea da Palma - MG em 30-01-1958, com 59 anos de idade, 40 anos de vida franciscana e 43 anos de sacerdócio.
Por Frei Rafael Zevenhoven
Fonte: Revista dos Franciscanos da Província Santa Cruz, 1958, p. 68-69