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Referência (documental ou bibliográfica)

  • Alt
    Identificador:
    60628
    Tipo de Referência Bibliográfica:
    Título da referência:
    Leggendario francescano overo Istorie de santi, beati, venerabili, ed altri uomini illustri, che fiorirono nelli tre ordini istituiti dal serafico padre san Francesco raccolto, e disposto secondo i giorni de mesi.
    Autor(es):
    MAZZARA, Benedetto
    Data de produção/publicação:
    1676
    Notas sobre esta referência:

    Na segunda edição do volume I (1689), a partir da pág. 603 (11 de março), traz a «Vida do Ilustríssimo e Reverendíssimo Frei Francisco Gonzaga, Frade Menor, Ministro Geral de toda a Ordem, Bispo de Mântua, Marquês de Offiano e Príncipe do Sacro Império Romano.», Ministro-geral responsável pelo envio dos fundadores da Custódia de Santo Antônio do Brasil. A pág. 626, traz a informações da presença do Ministro Geral Francesco Gonzaga (1579-1587) em Lisboa e em Madrid, onde se encontra com o rei Felipe II e gestiona a ida de frades capuchos para a futura Custódia de Santo Antônio do Brasil em 1585.

     

     

    Transcrição:

    Tomo I - Edição de 1689

    [p. 626] [...] por obrigação do seu ofício e pelo benefício do Reino, pensava em executar isso não com leis italianas ou espanholas, mas com a Regra de São Francisco, com os estatutos feitos para aqueles conventos e pelos capítulos estipulados para seu ofício, não buscando outro interesse senão o serviço de Deus. Caso não tivesse querido, teria sido considerado inimigo de Deus, do Papa e da Religião, e teria voltado de onde veio. Acrescentou ainda que, embora fosse italiano por nascimento e tivesse servido por um tempo na Corte da Espanha, depois se tornara, por hábito e profissão, religioso franciscano, afastando assim certos afetos mundanos contrários ao serviço de Deus, e animando-se a seguir caminhos seguros para o Céu. Essas palavras do bom Padre causaram grande impressão nos Senhores do Parlamento, que o rogaram insistentemente para que entrasse em uma sala próxima e, após conferirem entre si, pediram-lhe que consentisse que um Bispo assistisse às visitas e correções dos Frades. Ele respondeu prontamente que, para mostrar sua boa intenção, faria isso com prazer, mas que, estando naquele ofício sujeito apenas ao Papa, não reconhecia outro superior, e que não podia fazê-lo sem grande prejuízo para sua Ordem e para todas as outras religiões, pedindo que o tivessem por desculpado. Contudo, consentiu que Monsenhor Gondi, Bispo que depois se tornou Cardeal, ouvisse algumas dificuldades que os Frades apresentavam, mais por conversa do que por se submeter a ordens ou julgamentos alheios. O Rei, informado de tudo, retirou a causa do Parlamento e a remeteu ao seu Conselho secreto, mostrando grande favor. Logo lhe foi dada autoridade para visitar e reformar o Convento e toda a Religião na França, conforme lhe agradasse, pedindo apenas que usasse benignidade com os delinquentes. Chamado ao Conselho público, agradeceu com humildade e prometeu tratar os delinquentes com caridade, como fez, enviando-os às suas Províncias com penas salutares, o que deu grande satisfação ao Rei e aos Senhores, que ficaram edificados com sua caridade e prudência.
    Partiu depois de Paris, visitando outras Províncias da França e celebrando os Capítulos. Na cidade de Bordeaux, na Gasconha, sofreu uma febre muito forte, mas, após alguns dias, recuperou-se completamente e pôde retomar a viagem, dirigindo-se à Espanha. Embora atravessasse toda a França por terras de hereges, ele e seus companheiros sempre usaram o hábito religioso e nunca sofreram qualquer afronta.
    124 - Entrando na Espanha, passou por Biscaia, Castela Nova e Velha, e pela Extremadura, chegando a Portugal, onde se deteve em Lisboa, onde estava o Rei Católico Filipe II, que o recebeu com honra e acolhimento. A seu pedido, o Rei proibiu sob graves penas que Frades e Monjas falassem sobre a sucessão do Reino. Depois, partiu para a Andaluzia, visitou e celebrou o Capítulo daquela Província e, vendo que era muito vasta, com o consentimento dos Padres, dividiu-a em duas: uma com o nome de Andaluzia e outra chamada Província de Granada. Dali foi para Castela Nova e, em Toledo, ordenou que se celebrasse a Congregação Geral dos Ultramontanos. Indo a Madrid, chamou alguns Padres principais e lhes confiou a reforma dos estatutos da Espanha e das Índias para os Frades e Monjas, o que foi de grande proveito para todas aquelas Províncias. Visitou depois as Províncias da Conceição e de Burgos, celebrando os Capítulos. Aproximando-se o tempo da Congregação Geral, levou-a a Toledo, onde, reunidos todos os Padres Ultramontanos, se fez a eleição do Comissário Geral e outras funções pertencentes à Religião. Terminadas essas coisas, foi a Madrid para tratar de assuntos importantes da Ordem com o Rei, já retornado de Portugal, como fez. Encontrou ali enfermo o Príncipe Filipe III, filho único do Rei, cuja saúde os médicos temiam muito, causando grande desgosto ao pai. 
    [p. 627] Um dia, Gonzaga, informado da enfermidade do menino e da dor do Rei, foi perguntado por um Conselheiro o que poderia fazer para obter de Deus a vida e saúde do menino. Respondeu que Sua Majestade o recomendasse à intercessão de São Diego e promovesse com empenho sua canonização, como havia prometido, esperando receber do Senhor essa consolação. O Conselheiro referiu isso ao Rei, que chamou o Geral, ouviu o conselho e fez novo voto a São Diego; o filho ficou curado, e ordenou que se solicitasse em Roma a canonização do Santo.
    Nesse tempo, surgiram tumultos em Portugal contra o Rei e seus ministros, instigados por muitos Bispos e Padres Conventuais, dos quais restava uma Custódia naquele Reino. Para apaziguar tudo, julgou-se oportuno enviar Gonzaga, que, informado disso pelo Rei por meio de um Cavaleiro principal, decidiu ir pessoalmente a Portugal, embora fosse difícil o negócio. Obtida licença do Rei em Madrid, partiu, mas adoeceu gravemente em Valladolid; recuperou-se e prosseguiu a viagem, visitando as Províncias por onde passava e celebrando os Capítulos. Entrando em Portugal, começou a tratar com os Bispos com benignidade e cortesia, e em pouco tempo reduziu tudo à perfeita paz com o Rei, que, informado disso, elogiou sua habilidade e mostrou grande satisfação. Visitou depois a Custódia dos Padres Conventuais e, considerando seu estado, pensou em incorporá-la às Províncias dos Observantes, sobre o que enviou cartas; o Rei aprovou seu parecer, e ele executou tudo pontualmente. Concluídos esses negócios, o Geral visitou as Províncias de Portugal, celebrando seus Capítulos. Estando em Lisboa, chegaram alguns Frades das Ilhas Filipinas, que lhe falaram da propagação da fé cristã naquelas partes e que seria maior se houvesse mais missionários; por zelo, enviou vinte religiosos de singular bondade. Outros treze enviou para a China, onde se fizeram grandes progressos, semeando a fé católica entre aquelas gentes. Outros frades enviou ao Brasil e, partindo de Portugal, visitou as Províncias de São Gabriel e São José. Chegando a Madrid, informou o Rei do que havia feito e, além da acolhida e honras, recebeu de presente um vaso de prata dourado, belíssimo e trabalhado com arte, que os Reis da Espanha costumavam dar a algum grande Prelado na Epifania; ele o transformou em um cálice de ouro com sua patena e o colocou no Convento de São Martinho. Despedindo-se da Majestade Católica, dirigiu-se à Província de Múrcia, onde fez uma Congregação; dali visitou a Província de Aragão, celebrando o Capítulo. Depois fez Congregações em Valência e Catalunha, ordenando algumas coisas para estabelecer a paz, e, obtendo comodidade das galeras que iam a Gênova, embarcou nelas e retornou à Itália em poucos dias, chegando a Gênova. Entre os que vieram com ele estava o Beato Luís Gonzaga, filho de Ferrante Gonzaga, Príncipe de Castiglione, que voltava da Espanha, e com quem tratou das coisas de Deus, inflamando-se ainda mais no fervor. Ferrante havia escrito ao Geral pedindo que dissuadisse o filho de se tornar religioso; ele, porém, como coisa contra a consciência, não quis fazê-lo. De Gênova foi a Milão, a São Martinho e a Mântua, onde descansou um pouco até passar o calor, e depois foi a Roma, onde deu conta ao Papa de tudo o que havia ocorrido, pedindo perdão pelas faltas cometidas no ofício e suplicando que o dispensasse. O Papa, muito edificado, respondeu: “Creio que cumpristes bem vosso ofício, pois de todos os príncipes onde estivestes tivemos boas notícias de vós.” O Rei da Espanha também enviou ao Papa, por seu embaixador, que havia recebido grandíssima satisfação do governo daquele Geral, maior do que jamais tivera de qualquer superior de qualquer religião.
    [p. 628] Nesse tempo, o Padre Antônio Polivano, jesuíta e Comissário Apostólico nas partes setentrionais, havia escrito ao Papa pedindo que enviasse à Polônia frades franciscanos para ensinar; o Papa tratou disso com Gonzaga, mas, vendo muitas dificuldades em enviar italianos à Polônia, decidiu fazer um colégio em São Paulo de Bolonha para os frades polacos, sustentado pela Câmara Apostólica. Pouco depois chegou a Roma a notícia da morte de São Carlos Borromeu, Arcebispo de Milão e Cardeal, e começou-se a discutir quem seria seu sucessor. O Conde Olivares, embaixador do Rei Católico em Roma, pediu ao Papa que nomeasse Gonzaga para Arcebispo de Milão, afirmando que não poderia haver melhor escolha. O Papa mostrou boa vontade, mas Gonzaga, informado disso, recusou firmemente, dizendo que amava mais a paz de sua cela do que qualquer prelazia, e que não queria outra coisa senão cumprir a vontade de Deus. O embaixador, admirado, despediu-se, e o tratado não teve efeito.
    125 - Além disso, considerando ser pesado governar duas religiões diferentes, como a dos Menores Observantes e a dos Terciários, determinou nomear um Comissário Geral próprio para os Terciários, pelo menos na Itália, o que fez no ano de 1584. Depois, com licença do Papa, passou a Nápoles para tratar de alguns interesses da Religião, mas, por tantas fadigas, contraiu uma grave indisposição, que às vezes lhe dificultava a respiração. Os médicos lhe ordenaram que não andasse descalço, como sempre fazia, e que usasse calçado, o que fez por pouco tempo, e tomou alguns remédios que lhe trouxeram grande alívio. Nesse tempo, tendo notícia da morte do Papa Gregório XIII e depois da eleição de Sisto V, visitou as Províncias de São Nicolau na Apúlia e do Principado, celebrando seus Capítulos, e depois foi a Roma para beijar os pés do novo Pontífice, como fez, prestando-lhe a devida obediência por si e por sua Religião. O Papa respondeu: “Eu mesmo fui frade por graça de Deus muitos anos e sei bem das religiões, por isso não há perigo de que algum frade vos engane”, e acrescentou outras palavras que muito o satisfizeram. Pediu depois a confirmação dos privilégios da Religião, o que obteve. Querendo alguns ministros do Protetor dispor da Ordem a seu arbítrio, o Geral, vendo nisso coisa contra a consciência, opôs-se a tudo e levou a questão ao Papa, que, ouvindo ambas as partes, deu razão a Gonzaga, que preferiu renunciar ao cargo a fazer algo contra a consciência, admirando e louvando o Papa sua grande constância. 
    [p. 629] Os contraditores se calaram, mas alguns tentaram impor-lhe graves calúnias, das quais, reconhecido inocente, saiu plenamente justificado. Em todos esses trabalhos, além das orações, recomendava-se ao Senhor e escrevia a um certo Padre Francisco Espanhol, homem fervoroso, que, compadecendo-se dele, rogava ao Senhor e à Virgem que socorressem o pobre Geral. Esse religioso, em suas orações, viu várias vezes a gloriosa Rainha, que lhe disse que escrevesse ao Geral para que sofresse com boa vontade, pois seria ajudado e livre daqueles trabalhos. Outras vezes lhe fez saber que sempre seria sua defensora e protetora, e que não duvidasse de que o Papa não lhe faria injustiça, mas que, ao seu tempo, seria justificado e talvez feito Bispo. Por respeito à família Gonzaga, alguns frades começaram a chamá-lo de “Ilustríssimo” nas cartas; ele, que aborrecia essas vaidades, com fingida indignação, mandou ordens por toda a Religião com graves penas para que ninguém ousasse dar-lhe tal título. Apaziguados os distúrbios em Roma, continuou visitando e fazendo os Capítulos nas Províncias de Roma, Toscana, Bolonha e Veneza, onde deixava ordenações para manter a disciplina regular. Em Veneza, encontrou enfermo à morte o Padre Paulo Costabili, Geral da Ordem de São Domingos, a quem visitou várias vezes e assistiu, confortando-o no último passo. Em Brescia fez uma Congregação e passou a visitar a Província de Milão, quando foi avisado de que, por alguns assuntos urgentes, era necessária sua presença em Roma; partiu logo, passando por Florença, onde tratou com o Cardeal de Médici, Protetor da Ordem, dos interesses da Religião, e, chegando a Roma, apaziguou tudo. Pouco depois veio o Protetor, com quem, e com o Papa, resolveu a celebração do Capítulo Geral para Pentecostes do ano seguinte, 1587.
    Apesar de tudo, por seu bom governo e diligência para induzir cada frade à mais pura observância da Regra, correu voz pública de que, desde São Boaventura, a Religião não tivera Ministro Geral mais zeloso, diligente, exemplar e irrepreensível, mostrando-se sempre humilde com todos, em público e em privado, mas, quando via que com alguns não bastava a suavidade, mostrava-se firme em querer ser obedecido. A qualquer frade, por mínimo que fosse, que lhe escrevesse, respondia sempre, consolando-o, quando não podia com fatos, ao menos com boas palavras, exortando à paciência; e, se alguém lhe dizia que responder a todos era um trabalho excessivo, replicava: “Logo que não sou Geral só dos frades de respeito, mas de todos, e a todos sou obrigado segundo Deus e também segundo a política do mundo.” Era humildíssimo com os Protetores da Ordem, mas, se via que, mal informados, tentavam conceder coisas contrárias ao serviço de Deus, advertia-os com reverência, e, não bastando isso, ia ao Papa e lhe manifestava tudo, sendo sempre ouvido. Aos Reformados foi sempre amigo, dando-lhes toda comodidade para a mais pura observância da Regra. Aborrecia confundir o irmão, não dando penitências públicas senão quando forçado, e então as acompanhava com palavras doces, de modo que muitos ficavam mais compungidos pela benignidade das palavras do que pela dureza da penitência. Era paciente em ouvir qualquer frade, por mínimo que fosse, de modo que ninguém hesitava em tratar com ele familiarmente. Nas coisas difíceis e importantes, recorria aos conselhos dos peritos, mantendo estreita correspondência com o Doutor Martino Navarro, com quem confirmava os escrúpulos que às vezes surgiam sobre as coisas do seu ofício, e seguia os conselhos dados.

Como citar esta referência

MAZZARA, Benedetto. Leggendario francescano overo Istorie de santi, beati, venerabili, ed altri uomini illustri, che fiorirono nelli tre ordini istituiti dal serafico padre san Francesco raccolto, e disposto secondo i giorni de mesi. Venezia, Tramontino, 1676-80, 3 v.

MAZZARA, Benedetto. Legendario francescano overo Istorie de’ santi, beati, venerabili ed altri uomini illustri, che iorirono nelli tre ordini istituiti dal seraico padre san Francesco. Venezia, Lovisa, 1721-22, 12 v.

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